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A hora do empreendedorismo de impacto
Sábado, 31 de Março de 2018

Filipe Santos, professor de empreendedorismo no INSEAD e fundador do Instituto de Empreendedorismo Social

É possível e legítimo uma empresa fazer dinheiro assumindo uma missão social?

Durante décadas habituámo-nos a pensar que não. Que estes são mundos separados. As empresas procuram gerar lucros satisfazendo as necessidades dos clientes, enquanto as organizações da economia social procuram partilhar recursos ajudando as pessoas mais desfavorecidas. Os empresários de sucesso fazem dinheiro com os seus negócios mas depois podem dedicar parte dos seus lucros à filantropia. As empresas podem realizar ações de responsabilidade social mas separadamente do seu negócio central. Não se deve misturar fazer dinheiro e fazer o bem, para não complicar a gestão ou confundir objetivos e motivações.

Esta é a forma como nos habituámos a pensar a sociedade - em setores separados (público, empresarial e social). Só que esta forma de pensar está a ser desafiada pelo emergir de um novo segmento da economia e das finanças ligado ao empreendedorismo de impacto.

Uma nova geração de empreendedores acredita na eficácia e no potencial de escala dos modelos de negócio, mas também acredita que o empreendedorismo é uma ferramenta fundamental na resolução de problemas da sociedade. Estes empreendedores estão crescentemente a criar empresas que adoram de raiz uma missão social, mas assumem uma forma jurídica e objetivos de geração de lucro.

Em Portugal, projetos empresariais como a Academia de Código, que visa dotar as novas gerações de competências de programação que aumentem a sua capacidade de raciocínio e empregabilidade; o SPEAK, que está a criar uma rede em cidades europeias de ensino de língua e partilha de culturas para apoiar a integração dos emigrantes; e o Book in Loop, que criou uma plataforma de partilha e revenda de livros escolares usados, são três exemplos de um novo tipo de projetos empresariais que associam o impacto ao lucro. Estes são projetos que não se revêem no setor empresarial tradicional nem na economia social, mas sim num novo segmento de economia de impacto.

O que distingue o empreendedorismo de impacto do empreendedorismo tradicional é o assumir de uma missão social orientadora da ação, e o adotar de práticas que aumentem a criação e a partilha de valor do projeto, potenciando os benefícios de longo prazo para a sodedade e reduzindo possíveis malefícios.

Mas, para sermos justos para com os empreendedores, é importante dizer que esta ambição de mudar o mundo sempre foi a principal motivação dos grandes inovadores e criadores de negócios. No entanto, esta motivação dos empreendedores é muitas vezes subvertida pela ditadura de curto prazo dos mercados financeiros, que aposta numa procura de lucros mais agressiva. O que é verdadeiramente novo nesta década é o surgir de novos modelos de financiamento para estes empreendedores, que lhes permite crescer e alcançar impacto e lucro.

Em todos os países desenvolvidos estão a ser criados fundos de in

vestimento de impacto que, com um modelo próximo do capital de risco, financiam estes empreendedores e procuram eles mesmos gerar lucro e impacto simultaneamente. Em Portugal temos já o fundo Bem Comum com 2,5 milhões de euros de capital (tendo financiado os três projetos acima mencionados) e outros fundos ainda maiores em criação durante 2018. Nos países desenvolvidos, o investimento de impacto já atinge um valor em ativos de 115 mil milhões de dólares aplicados em milhares de projetos, de acordo com o inquérito de 2017 realizado a mais de 200 operadores de mercado pelo GIIN - Global Impact Investing Networt É o novo paradigma do impacto a chegar ao setor financeiro. É o início da transformação do capitalismo financeiro num modelo mais humano e inclusivo de capitalismo de impacto.

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