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Nesta padaria vende-se pão e contam-se histórias de sucesso
Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

A padaria Pão com História abriu recentemente as suas portas, para combater o abandono escolar precoce e ajudar a resolver problemas relacionados com o desemprego no município de Cascais. Garantir emprego a 30 pessoas por ano nas áreas da hotelaria e restauração e apoiar crianças em situação de vulnerabilidade, trabalhando a gestão das emoções, são algumas das estratégias que já estão a ser seguidas. Em entrevista ao VER, a responsável por este negócio social, Kátia Almeida, adianta que, a médio prazo, a ideia é “começar a explorar o crescimento do projecto, uma vez que existe capacidade produtiva para isso”
POR MÁRIA POMBO

Do pão saloio ao pão de Mafra, passando pelas carcaças, pelas bolas e pelos bolos, a padaria Pão com História promete satisfazer os gostos mais clássicos e discretos. Todavia, os denominados “Pães com História” – como o pão de tomate e orégãos, o pão de abóbora e ainda o de alfarroba e o de cereais – e também o “Pão do Chefe” – da autoria do chefe Rui Paula, que apadrinha o projecto, e cujo ingrediente em destaque é a couve lombarda – são os verdadeiros heróis desta “nação” e não deixam ninguém indiferente.

E o factor diferenciador deste estabelecimento – que tem a chancela da Pressley Ridge, uma organização sem fins lucrativos que apoia crianças e jovens em situação de vulnerabilidade – não reside apenas no facto de o mesmo inovar em termos de sabores. Mais do que pão, nesta padaria fabricam-se talentos e dão-se oportunidades a pessoas que vivem em situação de fragilidade económica e a quem o desemprego de longa duração bateu à porta. Tal como o nome indica, a padaria de fabrico próprio – que escolheu a zona da Galiza, em Cascais, para nascer – promete fazer História e ajudar a multiplicar, de ano para ano, as histórias de sucesso desta região.

Entre os jovens que não fizeram as melhores escolhas e os adultos que, por diversos motivos, já passaram demasiado tempo sem uma oportunidade de trabalho, este negócio social pretende agarrar pessoas à vida, ajudando-as a arregaçar as mangas e a pôr, literalmente, as mãos na massa. É por esse motivo que na equipa – que é constituída de forma permanente por um padeiro-pasteleiro, um ajudante de padeiro-pasteleiro, uma empregada de balcão, um responsável de comunicação, uma coordenadora de projecto e uma directora geral, comum à Pressley Ridge – existe sempre espaço para os aprendizes, os quais mudam de três em três meses.

Em regime de estágio, estes principiantes têm a oportunidade de aprender as artes da panificação e da pastelaria, e, após este período, a ideia é serem “acolhidos”, durante pelo menos um ano, pelos parceiros do projecto – nomeadamente pelo chefe Rui Paula, em alguns dos seus restaurantes, e também pela Eurest – ocupando algumas das vagas disponíveis. Nos primeiros seis meses, os aprendizes contam com o apoio e acompanhamento regular de mentores, e à medida que vão ganhando autonomia e responsabilidade, o apoio vai sendo cada vez mais pontual e esporádico. Garantir emprego a 30 pessoas por ano é o principal – e ambicioso – objectivo deste negócio social.

Complementarmente, e porque a ambição não é só gerar postos de trabalho, esta padaria irá receber, já a partir de Janeiro, miúdos entre os seis e os 12 anos no seu Clube das Crianças. Com variadas actividades e workshops, este é um espaço onde se pretende trabalhar com os mais novos um conjunto de questões relacionadas com a bondade, a empatia, as emoções e os talentos. As diversas metodologias que serão utilizadas pelos técnicos da Pressley Ridge pretendem incentivar os mais novos a conhecer o mundo com as próprias mãos, devolvendo-lhes a vontade de aprender e dando-lhes ferramentas que permitem construir um futuro mais risonho.

Em entrevista ao VER, Kátia Almeida, responsável pelo projecto Pão com História, refere que as metodologias utilizadas permitem melhorar “a relação com os pares” e a “expressão de emoções”, dando como exemplo o caso de uma criança que foi acompanhada pela sua equipa e que “no espaço de poucos dias, foi revelando uma vertente mais criativa e foi manifestando uma melhor integração no grupo, deixando progressivamente de estar zangada e sorrindo algumas vezes, o que antes não fazia”.

Complementarmente, e entre os mais graúdos, as competências a trabalhar são “essencialmente as pessoais e sociais”. A este respeito, a também directora geral da Pressley Ridge em Portugal explica que “partindo do princípio de que já existem algumas competências técnicas relacionadas com a profissão, os aprendizes têm a oportunidade de identificar, praticar e desenvolver as competências que são fundamentais para manter um emprego, como a responsabilidade, a assiduidade e pontualidade, o saber estar e saber relacionar-se”.

O Pão com História pretende “combater a pobreza infantil na região, através da promoção da empregabilidade e da diminuição do abandono e absentismo escolar”. Que necessidades encontra no concelho de Cascais, nomeadamente em termos de abandono escolar e carência de oportunidades de trabalho para jovens, que fazem com que esta padaria seja uma mais-valia para a região?

Segundo um estudo realizado pela Câmara Municipal de Cascais no ano de 2015, em que foram identificados os principais problemas de cada uma das freguesias, a zona da Galiza, local pertencente à União de Freguesias de Cascais e Estoril e onde o Pão com História se encontra, é uma das zonas mais fragilizadas. Entre as questões identificadas e associadas à zona estão o desemprego de longa duração, a escassa actividade económica, a pobreza e exclusão social, o insucesso e o abandono escolar. Estes são alguns dos principais problemas da zona onde nos enquadramos e que nos motivaram a desenvolver ali todo o projecto, até ganhar forma.

Quais são os critérios utilizados na escolha dos jovens e que competências são trabalhadas com estes ao longo dos três meses que passam na padaria?

Os critérios para a escolha dos aprendizes são estar desempregado(a); ter alguma experiência na área da restauração ou atendimento ao público e/ou ter formação profissional nesta área.

As competências a trabalhar são essencialmente as pessoais e sociais. Partindo do princípio de que já existem algumas competências técnicas relacionadas com a profissão, enquanto as praticam no nosso espaço, os aprendizes têm a oportunidade de identificar, praticar e desenvolver as competências que são fundamentais para manter um emprego, como a responsabilidade, a assiduidade e pontualidade, o saber estar e saber relacionar-se, entre outras.

Em que áreas de actividade actuam os vossos parceiros que garantem a inserção de 30 jovens por ano no mercado de trabalho? E quais são as condições inerentes ao estabelecimento das parcerias?

Os nossos parceiros são da área da hotelaria e restauração. Para serem parceiros têm que assegurar o emprego por um período mínimo de um ano e têm que mostrar disponibilidade para fazer um acompanhamento mais cuidado nos primeiros seis meses. Isto é, disponibilidade para o envio de feedback quinzenal acerca do desempenho do aprendiz, para a realização de reuniões periódicas que façam diferentes pontos de situação e tudo o que se mostrar necessário para assegurar as condições necessárias para o correcto desenvolvimento profissional do aprendiz.

Por seu lado, o parceiro pretende alguém de confiança a longo prazo e com um trabalho de qualidade, que não os deixe comprometidos, e isso é algo que podemos garantir. Antes de iniciar o projecto, o Pão com História fez um estudo de perfil dos aprendizes ajustado às necessidades da profissão e dos trabalhos a executar e esses perfis vão ao encontro das necessidades dos parceiros. Isto permite uma melhor gestão das expectativas de ambas as partes e assegura a continuidade da padaria a longo prazo.

O Clube de Crianças é um espaço de aprendizagem do Pão com História, dirigido a crianças entre os seis e os 12 anos. Onde e como vai funcionar este espaço e que metodologias serão utilizadas para estimular as aprendizagens dos mais novos? Quantas crianças serão, por ano e em média, apoiadas?

O clube das crianças arranca em Janeiro e irá funcionar no Espaço Pão com História, numa sala preparada para o desenvolvimento de workshops e actividades com uma componente mais prática. As metodologias utilizadas são inovadoras e foram testadas por nós antes de as considerarmos, como é o caso do Lego® Serious Play®. São aplicadas em três ciclos de cinco sessões cada, o que perfaz um total de 15 sessões. Na 1ª fase trabalhamos a empatia e a bondade; na 2ª fase trabalhamos a gestão das emoções e na 3ª fase trabalhamos os talentos e a sua aplicação no quotidiano. Neste clube esperamos abranger, no mínimo, 80 crianças por ano. Estas crianças a que queremos chegar são do 1º ciclo do concelho de Cascais.

Todas as metodologias foram testadas. Testámos a gestão de emoções com dez crianças no Brave, um programa da Pressley Ridge que trabalha directamente com as crianças, e verificámos uma melhoria na relação com os pares e na expressão de sentimentos e emoções.

Existem casos de sucesso que já possam ser apresentados?

Como o clube ainda não arrancou, não temos casos que sejam fruto directo do trabalho desenvolvido nele. No entanto, como as metodologias foram previamente experimentadas, podemos mencionar, por exemplo, o caso de uma criança recém-chegada a Portugal, muito reservada, isolada e até um pouco zangada com a vinda para o país e com a qual experimentámos o Lego® Serious Play®. Numa fase inicial, observámos construções nas peças de Lego® muito pouco desenvolvidas e muito monocromáticas. No espaço de poucos dias, com o decorrer das sessões, a criança foi revelando uma vertente mais criativa e foi manifestando uma melhor integração no grupo, deixando progressivamente de estar zangada e sorrindo algumas vezes, o que antes não fazia.

Antes ainda da inauguração oficial, o Pão com História conquistou vários prémios de reconhecimento nacional e internacional, como o Best European Citizenship Project e o World Peoples Vote do Barclays 325 Years Anniversary Celebration Awards. Em que consistem estes prémios e que critérios foram tidos em conta e que permitiram ao Pão com História ser vencedor?

O prémio “Best European Citizenship Project do Barclays 325 Years Anniversary Celebration Awards” foi o primeiro que ganhámos e era a nível europeu. Contou com mais de 30 projectos a concurso e a votação e decisão passou pelas mãos da comissão do Barclays em Inglaterra. Posteriormente, conquistámos o “World Peoples Vote do Barclays 325 Years Anniversary Celebration Awards”, que se realizou nos cinco continentes e contou com a votação do público. Os principais critérios em consideração eram a sustentabilidade do projecto, a inovação, a empregabilidade e o envolvimento dos jovens. Estes prémios consistiram na atribuição de um valor monetário que permitiram o financiamento do projecto.

De que modo é que será promovida a sustentabilidade do negócio e o sucesso do projecto?

Será promovida através da venda do pão, dos produtos de padaria e pastelaria, e com a criação constante de novos produtos que garantem uma diferenciação, uma vez que são produtos exclusivos e criados por nós (como é o caso de qualquer Pão com História). Além disto, uma percentagem do negócio é para revenda e fornecimento de serviços. A médio prazo, pretendemos também começar a explorar o crescimento do projecto, uma vez que existe capacidade produtiva para isso.

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