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Crise de meia-idade? O que é isso?
Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016

No meio de tantas análises e relatórios sobre a tão falada geração Y, os nascidos na década de 1970 e meados dos anos 80, foram remetidos para segundo plano em termos de importância sociológica ou económica. Mas os representantes da geração X ou os cerca de dois mil milhões de pessoas que têm agora entre 30 e 49 anos foram trilhando, sem ruído, um novo caminho que acabou por redefinir o que se entende por “idade adulta”. Seja no local de trabalho, na inovação global ou na realização pessoal, os Xers são pioneiros de muitos movimentos erroneamente atribuídos aos nativos digitais, prezando a conciliação entre vida profissional e pessoal e não sentindo o peso que, tradicionalmente, caracterizava a entrada na segunda metade da vida
POR HELENA OLIVEIRA

A febre dos artigos, estudos, análises e relatórios sobre a denominada, entre outro nomes, geração Y ou millennial, a qual e segundo as estimativas ocupará 75% da força laboral mundial em 2025, acabou por abafar completamente a geração que a precede e à qual muitos de nós, “mais crescidos”, pertencemos. Sim, a geração X – ou os Xers – parecem ter desaparecido do radar dos analistas, como se, ensanduichados, entre os Boomers e os famosos nativos digitais, tivessem sido remetidos para um canto e completamente ignorados.

Apesar de representarem um quarto da população mundial, aqueles que têm agora – e dependendo dos autores – entre 30 e 49 anos, parecem não ser suficientemente “interessantes” para que sociólogos, empresas, consultoras e afins despendam o seu tempo a estudá-los e a interpretá-los. E foi para preencher esta lacuna que a Viacom International Media Networks (VIMN), uma divisão da Viacom Inc entrevistou 12 mil pessoas pertencentes a esta faixa etária, em 21 países, e organizou uma ampla série de debates e entrevistas etnográficas para tentar perceber “como vai” a geração X e como tem vindo a crescer, mesmo que remetida ao silêncio, nestes últimos anos em que a sua importância foi destronada pelos tão intensamente escrutinados Millennials.

Em termos muito gerais, uma das principais conclusões a que este estudo, parte integrante de um projecto mais vasto intitulado “Gen X Today” chegou – e para a surpresa de muitos – aponta para o facto de os Xers terem estado absolutamente ocupados – e mesmo que “pela calada” – a provocarem disrupções inéditas em muitas das normas que considerávamos “seguras” e “bem estabelecidas”. E, mesmo longe das luzes da ribalta, este segmento demográfico apresenta-se confortavelmente feliz, estabelecendo padrões de vida “à sua maneira”, sentindo-se confiante e confortável com o que é, sendo que nove em cada 10 dos entrevistados admite identificar-se desta forma.

Actualmente, e de acordo com o estudo, os tradicionais marcos do casamento, da vontade de serem proprietários de uma casa e de terem filhos deixaram de constar no topo das suas prioridades, com apenas 39% dos respondentes a afirmarem terem “alcançado” os três itens referidos. Ou e como escrevem os autores, apesar de estarem fora do radar global, os Xers “pegaram” nas expectativas que outrora definiam a idade adulta, dissolveram-nas e criaram outras para figurarem no seu lugar.

Os cerca de dois mil milhões de pessoas que integram esta geração e que nas décadas de 80 e 90 foram considerados como jovens rebeldes, cínicos e até preguiçosos, tendo entrado depois na força laboral e na constituição da família, são agora considerados como uma espécie de reinventores da idade adulta, destruindo estereótipos e redefinindo os tradicionais papéis de separação entre géneros, ao mesmo tempo que lideram muitos dos movimentos, a vários níveis, de inovação global.

Na verdade, eles constituem a força principal por detrás de muitas transformações socioculturais, as quais são – erradamente – atribuídas aos Millennials, desde a participação nas redes sociais à luta pela flexibilização das normas laborais, passando pela aceitação e normalização de uma rede mais ampla de relacionamentos. Ou, e ao contrário do que é aceite pelo senso comum, a verdade é que foram os Xers que “o fizeram primeiro”.

Apesar de discretos – consequência do seu “desaparecimento” do debate público -, nunca deixaram de exercer a sua influência e, ao contrário dos representantes da geração Y, por muitos considerados como a geração narcisista, sem chamar a atenção para si mesmos, não podem, de todo, ser ignorados. Pioneiros em vários domínios da “modernidade”, lideram movimentos que buscam a igualdade entre raças, géneros e orientações sexuais, estão a alterar a composição dos governos e das empresas, a transformar os locais de trabalho e são consumidores com um interessante poder de compra. Ou, de forma “recatada” e sem espalhafato, estão silenciosamente a mudar o mundo.

Extenso e dividido por várias temáticas, o estudo realizado pela Viacom é bastante abrangente no retrato que faz desta geração. O VER seleccionou algumas das áreas que mais importantes considerou – em particular a forma como alteraram significativamente o local de trabalho exigindo maior flexibilidade e um equilíbrio saudável entre a vida pessoal e profissional – e tenta reproduzir de seguida os principais traços deste quadro, até agora abstracto, daqueles que, para os investigadores do estudo, são os responsáveis pela redefinição da idade adulta.

The Big Picture

Uma das grandes pinceladas que marca esta geração é liderada pelas mulheres, em particular no que diz respeito ao mundo do trabalho, mas também à economia no geral. A “she-economy” é uma realidade e mesmo que subsistam ainda as inegáveis diferenças no que à igualdade de salários diz respeito – tal como o VER noticiou recentemente, a paridade na esfera económica só será atingida, e se não existirem retrocessos, daqui a 170 anos – a verdade é que 60% das mulheres entrevistadas para este projecto da Viacom são “cabeça de casal” no rendimento familiar (ou ganham o mesmo que os parceiros), sendo que uma em cada quatro é dona do seu próprio negócio.

A família, ou o seu “peso” na vida dos Xers, também sofreu alterações. Tal como as mulheres desta geração estão a ocupar um espaço mais abrangente no mundo do trabalho, o mesmo está a acontecer com os homens, mas no que respeita ao “lar”. Mais de 80% dos respondentes concordam que um homem pode criar uma criança tão bem quanto uma mãe e uma percentagem similar sente que os filhos são tão importantes quanto as suas aspirações pessoais. Uma percentagem ainda maior dos respondentes masculinos – superior a 90% – afirma que ter os filhos por perto melhora o seu humor, fazendo-os rir mais, sendo que e também cerca de metade dos entrevistados afirmou desejar ser possível passar mais tempo com os seus rebentos.

No que respeita às amizades, e ao contrário dos Millennials (uma parte do inquérito realizado para aferir estes dados foi igualmente feita com a participação de membros da geração Y, para melhor se aferir o que mais os une ou divide), os Xers têm um ciclo de amigos mais restrito, mas mais intimo. Em média, a geração mais velha tem cerca de 36 amigos, menos 10 do que a geração que a sucede. Também e comparativamente aos Millennials, a geração X sente-se menos sozinha em 20% face aos nativos digitais, apesar das hordas de amigos destes últimos – muitos deles virtuais. E a rebeldia de que gozavam na adolescência transformou-se, na idade adulta, numa confiança e independência dignas de nota. Globalmente, 85% dos respondentes sentem-se confortáveis com o que são e com o que “atingiram”.

Uma outra conclusão, a qual será explorada mais em pormenor de seguida, prende-se com o facto de os Xers prezarem mais o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho comparativamente a “carreiras de sucesso”. E a (melhor) boa nova é que, e dado que muitos deles estão prestes a atingir a outrora temida “meia-idade” (um marco tradicional que, face às alterações demográficas e a uma maior esperança de vida não tardará, decerto, a ser desconstruído), a habitual “crise” que a costumava caracterizar não entra nas suas vidas. Pelo contrário, aqueles que se estão a aproximar dos 50 anos afirmam manterem-se “jovens no coração e na mente”, dando preferência a vários tipos de hobbies e a interesses variados não relacionados com o trabalho e, por isso mesmo, “passando ao lado” da sombra que tradicionalmente caracterizava a meia-idade.

Sucesso? Equilibrar flexibilidade laboral com gratificação pessoal

Nos inúmeros estudos e análises dedicados à geração Y, a conciliação entre vida pessoal e trabalho surge, geralmente, como um dos seus grandes desejos e conquistas. Mas e na verdade, os pioneiros desta “alteração comportamental” ou mudança de perspectiva são os Xers. A flexibilidade e a redução do stress surgem neste estudo como valores chave para esta geração, na qual oito em cada 10 entrevistados (82%) afirmam valorizar mais este equilíbrio entre vida profissional e pessoal do que o tradicional sucesso.

E, à medida que os Boomers começam a retirar-se do mercado de trabalho, ao mesmo tempo que os Xers ocupam um espaço mais alargado na economia global, o denominado “sucesso na carreira” veste-se também com roupagens diferentes. Para os nascidos nas décadas de 70 e meados da de 80, galgar os degraus da escada empresarial tem agora uma importância relativa, sendo que a ambição desmesurada por poder ou bons salários não entra nas suas equações preferenciais. O que prezam, sim, é atingir o tão falado equilíbrio ou conciliação entre o tempo e esforço que despendem a trabalhar com tempo de qualidade para a família e para os seus interesses pessoais.

O estudo em causa demonstra que os Xers não definem o seu sucesso a partir de objectivos externos, com 81% dos respondentes a concordar que o grau de importância que conferem à satisfação no trabalho é muito superior ao que caracterizava a geração que os precedeu. O que procuram é, sem dúvida e independentemente do que tal signifique, um “preenchimento” ou uma realização pessoal.

Absolutamente “conscientes” da realidade empresarial da actualidade e do que a mesma significa para as suas carreiras, os membros desta geração não esperam, tal como acontecia com os Boomers, ter “um trabalho para a vida”. Pelo contrário, 62% concordam que “para andarem para a frente” nos dias que correm, é necessário mudarem de emprego mais vezes.

E, acompanhando a flexibilidade que se vai instalando nos locais de trabalho, em conjunto com a evolução nos “papéis” de género, os pais e mães Xers aprenderam, e bem, a definir os seus próprios métodos de “malabarismo” que lhes permitem conciliar, de uma forma saudável, as suas responsabilidades laborais e ambições de carreira com o acompanhamento dos seus filhos e demais esferas da vida privada. Cerca de seis em cada 10 mulheres entrevistadas têm salários superiores ou iguais aos dos seus pares masculinos e entre os que consideram que um dos pais deverá ter o direito de ficar em casa a cuidar de um filho, 53% afirmam que esse “cuidador” poderá ser, sem qualquer problema, o pai.

Uma outra tendência revelada neste projecto alargado da Viacom está relacionada com o facto de existirem cada vez mais mulheres a trilharem o caminho do empreendedorismo, criando o seu próprio negócio, apesar de as diferenças percentuais não serem muito significativas (25% das mulheres versus 29% dos homens).

Em suma, na vida profissional, tal como em todos os restantes domínios da sua existência, os Xers não e preocupam minimamente com as normas estabelecidas no passado, optando por alinhar os seus objectivos de carreira com as suas metas pessoais. E, ao fazerem-no, foram transformando, sem grande alarido, o mundo do trabalho.

A geração sem problemas “existenciais”

Sem se preocuparem com o que “supostamente” lhes deveria ser exigido, mas apenas e somente com o que funciona e faz sentido para si mesmos, os Xers não sofrem da tão temida crise de meia-idade que caracterizou a geração que os precedeu. Ao contrário dos Boomers que, frequentemente, se sentiam esmagados pelo peso da responsabilidade, lamentavam o que não tinham feito ou alcançado e sofriam, muitas vezes, de crises de identidade à medida que se aproximavam da “segunda metade” das suas vidas, os Xers estão a ser capazes de lidar, e muito bem, com o remédio que encontraram para evitar estados depressivos, outrora comuns, na entrada dos 40 ou 50 anos.

Para os autores do estudo, a rebeldia que definiu a sua juventude acabou por se transformar numa aceitação radical, e saudável, daquilo que “são hoje”. Ou, por outras palavras, não se sentem obrigados a seguir nenhum guião predefinido, não querem parecer algo que não são e limitam-se a viver a vida à sua maneira. E, longe da importância conferida tradicionalmente às aparências, não se sentem preocupados com o que os outros possam pensar deles.

E é por isso que 81% dos inquiridos se descrevem a si mesmos como “felizes” com as vidas que têm, sendo que a principal razão para este contentamento reside na sua busca activa pela já mencionada realização pessoal.

Ter “algo” – um ou mais interesses pelos quais se sentem realmente apaixonados – funciona como uma espécie de fita isoladora para a crise da meia-idade. E este “algo” não tem de ser forçosamente uma actividade fantástica, mas somente algo que os faz felizes. Seja a participação em mini-maratonas, numa escola de artes circenses ou em programas culturais, mais de metade dos Xers entrevistados afirma, de forma convicta, que a arte, a música ou o desporto fazem parte integrante da sua identidade.

De acordo com os autores do estudo, uma das grandes vitórias desta geração reside no facto de serem capazes de dominar a arte das prioridades, colocando no topo o que é mais importante para si mesmos. E, ao atingirem este feito, “ganham espaço” para as suas diferentes necessidades, concentrando os seus esforços no que mais importa para o seu equilíbrio e realização, e “afinando-os” continuamente até atingirem um elevado nível de satisfação.

Esta “vitória” é comum aos que têm de lidar com as responsabilidades inerentes a serem pais ou mães, não se afastando deste objectivo de realização interior, com 83% dos inquiridos a concordarem que as suas aspirações pessoais e os seus filhos são igualmente importantes.

Para os que estão já a experienciar a inevitabilidade do “envelhecimento”, este estádio da vida não os assusta, com 70% a afirmar que se sentem muito mais jovens do que a idade que consta nos seus bilhetes de identidade

Para os que estão já a experienciar a inevitabilidade do “envelhecimento”, este estádio da vida não os assusta, nem os preocupa sobremaneira, com 70% a afirmar que se sentem muito mais jovens do que a idade que consta nos seus bilhetes de identidade (e ao contrário dos Millennials que, e por exemplo, são muito mais propensos a pensar em cirurgias plásticas e em outras formas de “rejuvenescimento”).

Em suma, e se para as gerações mais velhas, a meia-idade era tempo para um questionamento abrupto do que eram, do que desejavam realmente e de uma inevitável comparação entre os sonhos da juventude e a realidade da vida adulta, os Xers aprenderam a procurar, e a encontrar, o equilíbrio adequado entre o que têm de fazer e o que querem alcançar.

E porque aprenderam a gerir as suas responsabilidades e os seus objectivos pessoais, o optimismo desta geração face ao futuro apresenta-se como inabalável à medida que dão as boas-vindas à sua segunda metade da vida.

E, na verdade, três em cada quatro inquiridos acreditam que o melhor ainda está para vir.

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