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Investimento social maximiza o impacto dos donativos
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2016

O Natal é a quadra por excelência no que respeita a donativos. Mas as empresas portuguesas são generosas todo o ano, doando valores acima da média internacional. A Informa D&B e a Sair da Casca traçaram o retrato do apoio do meio empresarial à comunidade, concluindo que “hoje há uma nova dinâmica” que valoriza a transferência de competências e o acompanhamento dos projectos sociais. Como sublinha ao VER Nathalie Ballan, “a próxima etapa para maximizar o impacto dos donativos deveria passar pelo investimento social”
POR GABRIELA COSTA

As empresas portuguesas “são generosas”. Em 2014, os donativos efectuados pelo sector privado ascenderam a 139,8 milhões de euros, envolvendo a colaboração de 57 408 organizações, ou seja, 20% do tecido empresarial nacional. Este valor, que equivale a 1,8% dos resultados das empresas antes de impostos, é superior à média internacional registada, na ordem dos 1,04%, segundo uma análise do London Benchmarking Group publicada em Novembro de 2016. Do total de donativos em Portugal, 45% tem origem nas PME e 55% nas grandes empresas, e estas últimas aumentaram em 38% o valor doado. Para além de financiamento, as organizações contribuem cada vez mais com competências, e tendem a acompanhar a sustentabilidade dos projectos.

Estas são as principais conclusões do estudo “Retrato dos Donativos em Portugal 2010/2014 – Apoio das empresas à comunidade”, realizado pela Informa D&B em parceria com a Sair da Casca, e lançado em Outubro.

Abrangendo um universo de 294 mil entidades/ano, em média, de Pessoas Colectivas que mostraram actividade comercial ao longo do período que analisa, este estudo quantitativo inclui dados de todos os sectores de actividade. Pela sua natureza de reporte financeiro, a análise da Banca e Seguros é feita separadamente, tendo como fonte os respectivos relatórios e Contas. Nestes sectores os valores dos donativos foram avaliados com base em 35 relatórios da Banca, dos quais 27 com “Donativos e Quotizações”; e 36 relatórios dos Seguros, dos quais dez com “Donativos”.

Numa fase posterior, a Sair da Casca desenvolveu um estudo qualitativo a partir dos dados da Informa D&B, seleccionando 30 empresas que representam mais de 60 milhões de euros de donativos (42% do total), num universo de organizações nacionais e multinacionais pertencentes aos sectores Banca e Seguros, Energia e Água, Indústria Transformadora, Construção, Retalho, Telecomunicações e Transportes.

Esta análise permitiu conhecer as práticas empresariais mais frequentes em matéria de apoio à comunidade, a partir da comparação do desempenho empresarial em 2014 e 2015 com análises anteriormente realizadas pela consultora especializada em desenvolvimento sustentável e responsabilidade social (em 2012 e 2008). De sublinhar que o universo deste estudo integra 24 empresas que já faziam parte da amostra do estudo anterior, e seis ‘novas’ empresas, com donativos superiores a 500 mil euros.

Sinergias potenciam contributo das PME

As micro empresas (com volume de negócios inferior a 2 milhões de euros) constituem a larga maioria (85%) das empresas que efectuam donativos em Portugal, e são também o segundo segmento que mais contribui para o total de donativos (21%), conclui o relatório “Retrato dos Donativos em Portugal”.

Mas é um reduzido número de grandes empresas (0,7% entre todas as que fazem donativos) que assume 55% do total de donativos, com uma média de 182 mil euros por empresa. Por oposição, a esmagadora maioria (96%) das empresas que efectuam donativos regista uma contribuição média de 381 euros. O que reflecte, de acordo com os autores do estudo, um “grande paralelismo” entre a distribuição dos donativos e “a estrutura do próprio tecido empresarial”.

Em declarações ao VER, a Partner da Sair da Casca, Nathalie Ballan, esclarece que as PME apresentam um grande potencial nesta área não só devido ao elevado número em que existem, em Portugal, mas também porque “representam um valor significativo dos donativos” (45%, como referido). Na sua opinião, seria interessante transformar esta vantagem numérica numa sinergia benéfica para as organizações sociais e respectivas comunidades onde estão envolvidas: “as PME podiam juntar os seus donativos e desenvolver mais parcerias para, em conjunto, optimizar o seu impacto na sua zona de influência”, sugere.

Já Teresa Cardoso de Menezes, directora geral da Informa D&B, sublinha que os donativos das grandes empresas, que “representam mais de metade do valor total, permitem apoiar grandes projectos, garantindo a sua sustentabilidade”, mas há que considerar sem dúvida, o “contributo futuro” das PME no apoio à comunidade, “pela dimensão que assumem em número de empresas”.

Quanto à representatividade dos donativos à comunidade por áreas de actividade, conclui-se que apenas quatro sectores geram 71% do montante total de donativos: Retalho (26%), Gás, Electricidade e Água (18%), Indústrias transformadoras (14%) e Grossista (13%). O sector da Energia e Água é aquele onde a média de donativos efectuados pelas empresas atinge a quantia mais elevada (quase 70 mil euros por ano).

Já em relação às empresas da Banca e Seguros, analisadas à parte neste estudo, como referido, entre as 71 instituições bancárias e de seguros analisadas, 37 (27 na banca e 10 nos seguros) registam donativos, num valor global de 23,9 milhões de euros, “o que indicia o maior peso relativo destes sectores em matéria de donativos”, divulgam os seus autores.

Quanto à distribuição geográfica dos donativos, o valor doado está bastante concentrado na capital do País, com as empresas da Área Metropolitana de Lisboa a reunir 56% do total. Seguem-se as do Norte (25%) e Centro (11%), duas regiões que registam, aliás, uma maior percentagem de empresas que fazem donativos: 37% e 29%, respectivamente, contra 20% da Área Metropolitana de Lisboa.

O estudo da Informa D&B demonstra ainda que o montante dos donativos tende a aumentar à medida que aumenta a idade das empresas: às empresas maduras (com 20 ou mais anos de actividade) cabem 66% dos donativos, em 2014, às adultas (entre seis e 19 anos) 28% e às empresas jovens (até cinco anos) pouco mais de 6%.

A empresa como um investidor social

Para além do estudo quantitativo da Informa D&B que traça o retrato dos donativos em Portugal, a Sair da Casca realizou uma análise qualitativa com o objectivo de avaliar as práticas que as empresas que realizam donativos privilegiaram, em 2014 e 2015.

Este estudo complementar evidencia que o voluntariado se tornou uma prática consolidada e integrada em 83% das 30 organizações analisadas, “criando oportunidades para os colaboradores conhecerem melhor o sector social e o contributo que podem ter, num contexto em que Portugal ainda faz parte dos países em que os cidadãos menos aderem a esta prática”. E a verdade é que, embora tenha ganho relevo desde o Ano Europeu do Voluntariado, em 2011, este hábito em Portugal está bem longe da média europeia: na Europa, 24% das pessoas com mais de 15 anos fazem voluntariado, valor que em Portugal é apenas de 11,5%.

Outra causa que ganhou expressão foi a luta contra o desperdício alimentar. Segundo um estudo de 2016 do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Missão Continente, intitulado “Primeiro Grande Inquérito sobre Sustentabilidade”, o combate ao desperdício “tornou-se um grande consenso nacional e uma preocupação generalizada dos portugueses”. Preocupação essa que, a partir de 2015, “começou a ter protagonismo nas empresas”, naturalmente de forma mais premente nas áreas da indústria de transformação alimentar e no retalho.

Por outro lado, as causas que as empresas mais referem como prioritárias são a Educação e a Solidariedade, seguidas do Ambiente, Saúde, Cultura e Desporto. Como conclui a Sair da Casca, “se em 2008 era incontornável mostrar o papel solidário e reactivo das empresas a situações de grande urgência social, hoje há uma nova dinâmica, mais positiva, que aposta na educação, na empregabilidade e formação e na igualdade de oportunidades”.

Explica a consultora que um pequeno grupo de grandes empresas, “muito relevante pelos montantes de donativos atribuídos ao sector social e à cultura, e pela sua capacidade de inovação social, está a promover novas atitudes”. Estas organizações começaram nos últimos anos a implementar uma série de prémios e concursos e outras iniciativas que “permitiram a todas as entidades sociais competirem em igualdade de circunstâncias, de forma muito transparente” e, em alguns casos, com um compromisso do promotor da iniciativa num apoio plurianual, o que representa “um factor de estabilidade para as organizações beneficiárias”, detalha.

Assim, e de um modo geral, as empresas estão a evoluir “para uma estratégia de filantropia cada vez mais bem organizada, com empresas que querem contribuir não apenas com financiamento, mas também com competências, e que manifestam o seu interesse em seguir o desenvolvimento dos projectos”, conclui a Sair da Casca.

Nas palavras de Nathalie Ballan, “a próxima etapa para maximizar o impacto social dos donativos empresariais deveria passar pelo investimento social”, graças ao qual “a empresa assume um papel ainda mais activo de investidor, que está à espera de um retorno, mesmo que a longo prazo”.

Mas a que distância estão as organizações sociais desta estratégia, nomeadamente as de menor dimensão? À questão colocada pelo VER, a Partner da Sair da Casca responde com um exercício simples, que parte da constatação que, nesta fase, o investimento social “diz sobretudo respeito às grandes empresas”, que representam 55% dos donativos e que “ainda hoje têm uma grande dispersão na alocação destas verbas”. Ora, “se 10% destes 80 milhões fossem investidos num ou em vários fundos” para financiar o desenvolvimento do sector social (entidades mais maduras ou start-up), ou directamente em empresas sociais, “então teríamos o início da criação de um mercado do investimento social”.

O que significaria uma importante evolução, já que “até hoje houve várias experiências de financiamento, mas quase sempre com montantes irrisórios”. E, afinal, num contexto em que “o empreendedorismo está tão na moda, e em que se fala de milhões para start-up”, por exemplo, “como é que achamos normal que o mercado do investimento seja quase inexistente e que o financiamento de novas empresas sociais em media nem chegue aos 50 mil euros? Qual é o risco, se de qualquer forma as empresas até hoje sempre deram este dinheiro sem nenhuma preocupação de retorno?”

Como defende Nathalie Ballan, para criarmos ou consolidarmos empresas sociais ou entidades sociais sólidas, o investimento deve ser relevante”, tal como sucede no “sector tradicional”. É “uma questão “de alocação, de posicionamento”, conclui, lamentando: “salvo algumas excepções, ainda estamos longe desta estratégia do investimento social”.

A qual iria permitir “reciclar o dinheiro dos donativos e criar parcerias fortes entre os diferentes sectores empresarial, social e público”, constituindo “uma alavanca” para entidades do sector social poderem desenvolver a sua actividade geograficamente ou criar novas competências e soluções.

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