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A outra geração
Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

Não têm banda "pop". Ninguém os canta. José Rui e Maria do Céu. 55 e 47 anos. Desempregados, com filhos estudantes. Pais dos filhos e pais dos seus próprios pais. Com menos visibilidade do ponto de vista político e social, esta geração, a quem já apelidaram de "sanduíche", tem, talvez, problemas maiores do que os mais jovens. Em geral, as pessoas têm menos qualificações e, também por isso, maior dificuldade em reingressar no mercado de trabalho, permanecendo mais tempo numa situação de desemprego. Quando o tempo passa, a solução é a reforma. O Estado substitui o Estado.

Conhece de cor o mundo do cartão canelado. Empilhadoras, dobradoras, prensas, máquinas integradas. José Rui trabalhou durante 30 anos na Portucel Embalagem de Leiria, hoje detida pela espanhola Europac. A nova gestão terá abanado a cultura da empresa. "A companhia optou por colocar pessoas mais novas. Chegaram a enviar para Espanha um trabalhador com 62 anos. Ele foi", assegura. José Rui, hoje com 55 anos, saiu da empresa com uma indemnização. Um dia, Maria do Céu, 47 anos, chegou ao escritório onde trabalhava como efectiva e, no seu lugar, estava uma rapariga Nova e com mais formação.

Maria do Céu e José Rui, ambos desempregados, mantêm-se activos e trabalham lado a lado na Segurança Social de Leiria, onde têm um Contrato Emprego-Inserção de 12 meses. São os correntemente chamados "CEI" (Contrato Emprego-Inserção), antigos "POC", que lutam para escapar ao isolamento do desemprego e aumentar o rendimento mensal.

Disponíveis para trabalhar, respondem a anúncios de emprego, têm todos os requisitos solicitados, à excepção de um: a idade. Ter mais de 45 anos é um sinal muito vermelho no mercado de trabalho. José Rui e Maria do Céu são duas vozes entre muitas desta "geração" com menos visibilidade política e mediática que a designada "geração Deolinda". E, talvez, mais tramada

Para um alargado grupo de pessoas da geração protegida pelos contratos sem termo, situações transitórias de desemprego podem significar um ponto final na vida activa Mesmo sem uma canção "pop" que as represente, existe uma espécie de refrão amplamente divulgado: "demasiado novas para a reforma, demasiado velhas para ir trabalhar".

Desemprego sem fim à vista

"A elevada ressonância social e política da música dos Deolinda suporta-se em factos objectivos e incontestáveis: é entre as camadas mais jovens da população activa que os vínculos laborais precários estão mais difundidos, que a taxa de desemprego é mais elevada ou que as remunerações são, em termos relativos, mais baixas", aponta Frederico Cantante, investigador do Observatório das Desigualdades. "Mas apesar de reconhecer a pertinência da narrativa de 'Parva que Sou', há outros grupos da população activa que enfrentam problemas estruturais também complexos.

Com baixos níveis relativos de escolaridade e literacia, os activos com mais de 40 anos são severamente atingidos pelo processo de recomposição da economia portuguesa O melhor indicador disso mesmo é o facto de serem eles os que tendencialmente permanecem mais tempo numa situação de desemprego", frisa o investigador.

Um desempregado na faixa etária entre os 25 e os 34 anos está, em média, há vinte meses no desemprego, revelam os dados solicitados pelo Negócios ao Instituto Nacional de Estatística (INE). Entre os 45 e 64 anos, a duração média de desemprego sobe para mais de 30 meses. Quase dois terços (65%) dos 191 mil desempregados entre os 45 e 64 anos procuram trabalho há mais de um ano. Destes, 75 mil fazem-no há mais de dois.

A formação ainda conta

"Ó dona Ana não chore, vá lá, já tem tantos anos de trabalho". Quando preencheu a folha do pedido do subsídio de desemprego, a costureira de Barcelos estava inconsolável. Aos 45 anos, sentia-se demasiado nova para deixar de trabalhar. Mesmo depois de três décadas como "maquinista" nas fábricas do sector têxtil, que entretanto viu encerrar. Camisolas de criança, de senhora, de homem, fatos de treino, calças de malha Aprendeu a fazê-las logo que saiu da escola, aos onze anos.

O chamado "desemprego estrutural" é, em grande parte, explicado pela falta de qualificações desta camada da população. "A geração que agora sai das universidades não tem emprego. Mas tem uma cabeça que esteve a funcionar até aos vinte e tal anos, em vez de parar aos 12 ou 14, como antigamente. E isso tem vantagens óbvias", reflecte Teresa Costa Cabral, ex-directora administrativa financeira que perdeu o emprego aos 54 anos.

"Com menos visibilidade social do ponto de vista político e social, esta geração tem, talvez, problemas maiores do que os mais jovens", afirma o sociólogo André Freire, investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. "É mais prejudicada, tramada talvez. Em geral, as pessoas têm qualificações mais baixas que a chamada 'geração parva', o que dificulta a sua reintegração no mercado de trabalho.

Na canção dos Deolinda está quase implícita uma desvalorização do estudo, mas é preciso não esquecer que, quando estudam, os indivíduos formam-se enquanto pessoas e cidadãos. Portanto, os jovens, apesar de tudo, são mais qualificados e têm uma expectativa de integração maior do que as pessoas com quarenta ou mais anos", manifesta o sociólogo.

Reaprender pode ser mais difícil

As baixas qualificações comprometem o êxito do próprio processo de reaprendizagem, aponta, por sua vez, Nádia Simões, especialista em mercado de trabalho. "Muitas destas pessoas não têm a educação formal mínima necessária ao próprio processo de reaprendizagem", frisa a investigadora do ISCTE.

A diferença de qualificações é conhecida, mas a dimensão da mesma impressiona Mais de metade das 2,8 milhões de pessoas em Portugal que têm entre 45 e 64 anos tirou a quarta classe, ou menos. Os dados do Inquérito ao Emprego revelam que nesta faixa etária há 168 mil cidadãos que nem sequer terminaram a escola primária Apenas 9,8% das pessoas deste escalão etário tem o ensino superior, contra 25% na faixa mais jovem.

Depois de vinte anos como recepcionista, Margarida foi dispensada. Sem grande surpresa, diz. "A empresa considerava que não estávamos preparados para as novas tecnologias", conta. O correio da empresa passou a ser registado por computador. E, entretanto, as funcionárias envelheceram. "A recepcionista é a face da companhia Querem carinhas bonitas, mais jovens...", aponta Margarida não consegue explicar qual foi o processo legal. Rescisão por mútuo acordo? Despedimento por inadaptação? Mas garante que recebeu "tudo a que tinha direito".

São mudanças que acontecem "apesar da existência de vínculos formalmente seguros", para usar a expressão de Frederico Cantante, investigador do Observatório das Desigualdades. O retrato estatístico é, de facto, o de uma geração muito mais protegida pelos contratos de trabalho: 89% dos 1,8 milhões de trabalhadores por conta de outrem com mais de 44 anos têm contratos permanentes (contra 77% no conjunto da economia). E os mais velhos resistiram à forte tendência para o aumento da precariedade. A percentagem de pessoas com contratos sem termo é a mesma que se verificava há dez anos.

Nem todos os casos dizem respeito a pessoas que ganhavam 750 euros por mês, como a recepcionista da zona de Lisboa, ou o salário mínimo, como a costureira de Barcelos. Teresa Costa vivia, aos 54 anos, com o relativo conforto de um vencimento de cerca de dois mil euros. A ex-directora administrativa e financeira de uma pequena empresa, hoje com quase 57 anos, inscreveu-se há três anos no centro de emprego e garante que, desde então, nunca recebeu uma proposta de trabalho.

O que é que a idade tem?

Os trabalhadores mais velhos exigem, à partida, salários mais altos, mas, a avaliar pelos resultados das políticas públicas, não basta um desconto no preço para convencer uma empresa a "comprar" um empregado. No início do ano passado, o Governo reforçou os apoios à contratação a prazo de desempregados com mais de 40 anos e inscritos nos centros de emprego há mais de nove meses.

A Segurança Social "oferecia" um desconto de 50% na taxa social única no primeiro ano e de 65% no segundo. O objectivo era apoiar a integração de alguns milhares de pessoas. Até ao início de Julho, deram entrada 150 requerimentos.

A idade "não é um tema", afirma Mariana Branquinho da Fonseca, "partner" daHeidrick & Struggles. A responsável da consultora em recrutamento de executivos identifica, no entanto, um problema de "mentalidade" mais frequente entre trabalhadores mais velhos e de baixas qualificações. E que se traduz por "resistência à mudança", à "cultura de avaliação" e ao empenho em dar "valor acrescentado" à empresa. "São pessoas que trabalharam toda a vida em uma ou duas empresas e que desempenharam a mesma função durante trinta anos. Se isso desaparece, pensam: 'E agora o que é que eu faço?" Por um lado não sabem bem o que fazer, por outro podem ter vergonha de tomar a iniciativa num mercado que é hoje muito competitivo", diz.

Um dos erros frequentes é disparar "em todas as direcções". Ou dar a entender que a disponibilidade não é total. "Já aconteceu perguntarem-me numa entrevista qual é o horário! Não pode ser". Procurar emprego dá trabalho e, na opinião da especialista, "há muita gente que não quer trabalhar".

A lógica dos empresários é criticada por Nuno Fernandes Thomaz, presidente do conselho de administração do Bem Comum, fundo criado em Outubro de 2010 pela Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) que visa apoiar projectos de empreendedorismo de pessoas com mais de 40 anos. "É nesta faixa etária que as pessoas reúnem a maior parte do investimento que a empresa fez na sua formação".

As empresas dispensam as pessoas precisamente quando estas estão mais capacitadas, aponta. Estado substitui o Estado José Rui responde a anúncios de emprego, mas, sem sucesso, decidiu que vai pedir a reforma. Foi também esse o destino de Ana, a costureira de Barcelos, que tinha razão quando pressentiu que não mais voltaria ao mercado de trabalho. Esgotou o período de subsídio de desemprego. Passaram 38 meses. E o subsídio social de desemprego. Mais 18 meses. Em Agosto passado, com 59 anos, optou por solicitar a reforma, mesmo sabendo que iria sofrer uma penalização.

Ana é apenas uma das 156 mil pessoas que, em Dezembro do ano passado, estavam registadas na Segurança Social como pensionistas com reforma antecipada. O desemprego foi o motivo de pedido de reforma em mais de metade dos casos. O Estado substitui o Estado.

Directores também ficam desempregados

Teresa Costa Cabral tinha 54 anos quando o seu posto de trabalho foi "extinto" e teve de ingressar na fileira dos desempregados. Era directora administrativa e financeira de uma pequena empresa. A história de Teresa não é a história que estamos habituados a ouvir. Que os menos qualificados são os que sofrem com o flagelo do desemprego. Aos 56 anos, Teresa continua à procura. E não desiste. Está inscrita no centro de emprego e continua a fazer prova que quer encontrar trabalho. Revela que tem pena por não estar a trabalhar. Parar não é bem uma opção. Encontra sempre uma ou outra ocupação. Mas afinal quem é que tem mais razões de queixa? Os jovens ou a faixa etária dos 45?

Teresa é clara. As razões de queixa são diferentes. E que há uma diferença. Os jovens de hoje têm mais qualificações que no passado e, apesar de muitos não terem emprego, a sua mente é estimulada durante mais tempo.

CATARINA ALMEIDA PEREIRA
LÚCIA CRESPO
ANA LARANJEIRO

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