Home > Notícias
Notícias
Fundo Bem Comum ataca desemprego
Sábado, 3 de Novembro de 2012

A ACEGE lançou a 27 de Outubro, no Salão Nobre da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, o «Fundo Bem Comum», na presença dos responsáveis máximos das instituições da banca nacional que financiam o projecto. A iniciativa, que visa promover emprego sustentável para pessoas com mais de quarenta anos, vai apoiar projectos empresariais de desempregados ou pré-reformados. Estimular o empreendedorismo social e a economia nacional são os grandes objectivos deste Fundo
POR GABRIELA COSTA

O Fundo Bem Comum nasceu para dar uma oportunidade aos quadros profissionais que, por razões etárias, foram “esquecidos” pelo mercado de trabalho, apesar de terem ainda capacidade e talento para contribuir para o desenvolvimento social do País. O projecto vai ser gerido por uma sociedade de capital de risco, a Sociedade Bem Comum (SBC) com um capital inicial de 2,5 milhões de Euros, aplicado em partes iguais por cinco instituições: Banco Espírito Santo, Grupo José de Mello, Caixa Geral de Depósitos, Grupo Santander e Montepio Geral.

Um conjunto de parceiros irá garantir apoio probono ao projecto a vários níveis: a empresa Morais Leitão Galvão Teles Soares da Silva & Associados vai funcionar como consultora legal da SBC, enquanto que a KPMG & Associados será a auditora do projecto, ao lado da Accenture e da Moore Stephens. A Dynargie colabora na área da formação e cooperação como co-investidor da Inov Capital.

Já considerado pioneiro e inovador, o Fundo Bem Comum contará ainda com o apoio de alguns membros da ACEGE, empresários e gestores de sucesso que se disponibilizam para realizar, graciosamente, a selecção e avaliação das candidaturas e o "coaching" dos promotores e dos projectos.

Já disponível está a página online da iniciativa, a partir da qual podem ser apresentadas as ideias de negócio para criação de uma empresa ou de um projecto empreendedor. A ACEGE garante que não há sectores privilegiados para receberem os apoios e já garantiu que todos os projectos que não caibam no âmbito do Fundo Bem Comum, por não cumprirem os requisitos necessários, serão encaminhados para outras entidades.

"O país desperdiça recursos válidos"
No seminário de apresentação do Fundo, dedicado ao tema “Nunca é tarde para recomeçar”, Nuno Fernandes Thomaz sublinhou que “os objectivos da iniciativa passam pelo estímulo da economia e pela promoção do bem comum”. Perante uma audiência de cerca de 160 pessoas, entre empresários, economistas e associados da ACEGE, o presidente da SBC recordou que se “vive hoje cerca de oitenta anos mas, inexplicavelmente, se alguém for despedido com quarenta anos, certamente terá a maior dificuldade em arranjar novo emprego”. Importa, com este Fundo, impedir “a delapidação de valiosos recursos humanos”, minimizando o drama do desemprego para estes quadros e o custo desta realidade para a economia.

Não obstante, a iniciativa não tem qualquer função filantrópica: “pese embora a natureza social do fundo, acordou-se desde a primeira hora que a gestão se guie por um rigor equivalente ao das melhores práticas financeiras, sem margem para cedências a impulsos caritativos ou de favor”. Garantido é que “só projectos sustentáveis e capazes serão apoiados”.

Ideias de negócio que abundam, e que revelam os “recursos válidos que o país tem vindo a desperdiçar”, corrobora o professor João César das Neves, uma das personalidades dos planos económico e social português que intervieram no seminário dedicado à apresentação do Fundo Bem Comum, reflectindo sobre a importância que projectos deste cariz de empreendedorismo social podem trazer ao país.

O economista e docente da Universidade Católica Portuguesa salientou ainda que “iniciativas como esta podem corrigir alguns dos problemas mais disparatados da sociedade”, como o preconceito relativo à idade, “que domina o mercado de trabalho”, e o desaproveitamento dos reformados: “ser velho, hoje, é um problema, e quem o é está fora de prazo”, lamentou o também docente da Universidade Católica Portuguesa.

Filipe Santos, director da escola de formação empresarial INSEAD, anuiu a esta ideia, considerando que o Fundo Bem Comum “representa uma inovação que precisa de ser bem incorporada na sociedade”. O especialista equiparou o projecto da ACEGE a outros semelhantes implementados na Índia, em Inglaterra e em Espanha, lembrando que o “empreendedorismo social tem vindo a ser implementado não só nos países em vias de desenvolvimento, mas também nos países desenvolvidos, e com bons resultados”.
Relembrando uma expressão do economista do século XVIII Adam Smith, que evocava uma “mão invisível” que impelia a economia, movida pelo interesse próprio das pessoas, Filipe Santos defendeu que “a sociedade precisa agora de uma segunda ‘mão invisível’, que faça crescer a economia, mas movida pelo amor ao próximo”.

E é precisamente num ambiente de amor ao próximo – intrinsecamente ligado ao conceito global de Bem Comum – que os responsáveis católicos devem e “têm de intervir mais na procura de soluções”. Para Francisco Sarsfield Cabral, há hoje em Portugal “uma falta de reflexão, por parte dos intelectuais católicos, no que diz respeito à situação económica do país e ao modelo de desenvolvimento que se deve seguir”. O jornalista da Renascença, especialista em assuntos económicos, recordou a mensagem de Bento XVI na encíclica “Caritas in Veritate” ao apelar “para uma profunda reflexão sobre estas matérias por parte dos cristãos, algo que não está a ser feito”. Defendendo que o Papa já apontou caminhos suficientes sobre esta questão, Sarsfield Cabral deixou o repto: “cabe agora aos católicos avançarem propostas concretas ”. Neste contexto, o Fundo Bem Comum constitui “um exemplo a seguir” e “é nos pequenos passos, como o empreendedorismo social ou o microcrédito, que está o caminho”.

"As pessoas estão tristes, mas não conformadas"
A iniciativa da ACEGE nasceu da necessidade da Associação se “empenhar com um projecto social”, em resultado de um “olhar para a sociedade portuguesa, onde há muito sofrimento”. Em declarações à margem da sessão de lançamento do Fundo Bem Comum, António Pinto Leite destacou, no actual contexto, o desemprego que incide nas pessoas com mais de quarenta anos “que têm perfil empreendedor, estão tristes mas não conformadas, que batem às portas e que as encontram fechadas”.

De acordo com o presidente da ACEGE, este fundo gerido por uma sociedade de capital de risco destina-se a apoiar projectos empresariais que apresentem condições de sustentabilidade no futuro. Nesta medida, qualquer ideia de negócio inovadora (o factor inovação será valorizado na selecção dos projectos) poderá ser proposta, através do portal www.bemcomum.pt, para vir a ser apoiada e suportada financeiramente pelo Fundo financiado pelo Banco Espírito Santo, Grupo José de Mello, Caixa Geral de Depósitos, Grupo Santander e Montepio Geral.

Em sintonia com a ACEGE, que evidencia a vulnerabilidade deste grupo de profissionais “sénior” quando se vê confrontado com a necessidade de regressar ao mercado de trabalho, a banca portuguesa, representada ao mais alto nível no seminário de lançamento do projecto, manifestou-se unanimemente a favor da implementação de medidas novas e inovadoras de combate à aguda conjuntura económica que o país atravessa, muito concretamente no que diz respeito a atacar o desemprego. Essa é, de resto, a principal motivação comum aos cinco bancos que abraçaram esta causa social.

Representadas directamente pelos seus administradores ou presidentes, as instituições bancárias enalteceram a “iniciativa meritória” da Associação Católica: Fernando Faria de Oliveira, Vasco de Mello, Tomás Correia, Nuno Amado e Joaquim Goes reuniram-se num painel intitulado “A aposta no empreendedorismo sénior”, fazendo desta vez concorrência entre si apenas para celebrar a capacidade empreendedora e o espírito de iniciativa.

O presidente da CGD sublinhou que a primeira razão de envolvimento do banco no Fundo Bem Comum é a “grande importância que a CGD dá à capacidade empresarial em projectos inovadores, no âmbito da sua política de RS”. Defendendo que a actual crise financeira e civilizacional (ou de valores) é acompanhada por “uma crise de soluções eficazes e inovadores”, Faria de Oliveira considerou que esta é uma “ideia notável, promotora do empreendedorismo” numa faixa etária onde as pessoas têm “conhecimento, talento, experiência e criatividade, mas não conseguem arranjar emprego”. Afirmando que nesta “fase económica” muito terá de mudar em Portugal – desde logo, “a consolidação orçamental e a coesão social”, Faria de Oliveira avisou que é necessário alterar o modelo de crescimento no País e, nessa perspectiva, “o empreendedorismo terá um papel muito relevante”.

Vasco de Mello iniciou a sua intervenção com uma palavra de apreço à direcção da ACEGE e a João Talone, presidente do Conselho de Investimento do Fundo e figura que impulsionou, desde a primeira hora, este projecto, “fazendo questão de estruturar o projecto com todos os meios necessários”. ‘Não basta dar a cana, é preciso ensinar a pescar’, aprendeu em menino, com o seu pai, o presidente do Grupo José de Mello. Hoje, acredita que empreendedorismo é “uma das qualidades que mais falta faz neste país” e, portanto, todos os projectos que apresentem um grau de inovação significativo serão privilegiados. Para Vasco de Mello, do rigor na selecção dos mesmos resultará a multiplicação de iniciativas deste género: “a única forma de aumentar a escala de investimento agora disponibilizado será garantindo que os projectos tenham sucesso, chamando mais investidores”, concluiu.

Empreendedorismo, emprego e iniciativa privada
Já o presidente do Montepio Geral associou o interesse neste projecto aos princípios de solidariedade do banco. Na sua opinião, na presente conjuntura é essencial “desenvolver um conjunto de iniciativas para incrementar a consciência colectiva”, contrariando a eterna tendência nacional “de que tem de haver sempre um chapéu do Estado para resolver os problemas”. Tomás Correia sublinhou a importância de o acompanhamento aos novos projectos empresariais que venham a ser seleccionados ser feito “por quem está no terreno” e tem o know-how. Optimista, este responsável deixou um voto de grande confiança no Fundo Bem Comum, o qual “tem todos os ingredientes” para ser um sucesso, já que o projecto “foi concebido por gestores que conhecem a nossa economia e está muito bem pensado, ao nível da implementação e coaching dos projectos”.

Esclarecendo desde logo que o core business do Santander Totta – como o de qualquer outra instituição bancária – é emprestar e transaccionar dinheiro, Luís Amado afastou a ideia de filantropia da actividade do banco, que “dá sempre primazia às parcerias. Mas estas têm de ser rentáveis e vantajosas para todos”, disse. Crítico, o presidente do Santander Totta não tem dúvidas: “existe uma coincidência entre o aumento da despesa do Estado e a pouca produtividade do país”. Neste contexto, “percebemos desde o início (da ideia de criação do Fundo Bem Comum) que a estrutura do projecto é muito isenta. Noutras circunstâncias, a estrutura de parceiros inicial poderá vir a ser de maior valor”, rematou, esperançado no crescimento da iniciativa, Nuno Amado.

Finalmente, no entender do administrador, em representação do presidente do Banco Espírito Santo, empreendedorismo, emprego e iniciativa por parte da sociedade civil são as tónicas fundamentais do Fundo Bem Comum: criar e estimular a inovação social com valor económico; reduzir os níveis de desemprego, contribuindo para a coesão social (reduzindo as crescentes desigualdades entre os vinte por cento da população mais rica e os vinte por cento da população mais pobre); e dinamizar a sociedade civil para que tome a iniciativa, sem estar sempre à espera da intervenção do Estado são os factores chave que caracterizam o desígnio deste projecto. Para Joaquim Goes, “o emprego no escalão etário mais elevado vai ser o grande desafio dos próximos anos”. Fulcrais, para “separar o trigo do joio e valorizar projectos de excelência”, serão os critérios de exigência que pautam a iniciativa, no que concerne o processo de selecção dos projectos que se candidatarem ao Fundo.

Nesta perspectiva, e face às quarenta a cinquenta mil quadros médios e superiores que, segundo a ACEGE, existem hoje em Portugal nas condições necessárias para recorrer a este Fundo, o secretário-geral da Associação cristã espera que o projecto abranja cerca de cinco mil pessoas, com perfil empreendedor. Recordando que existiam já no mercado nacional fundos destinados a jovens e recém-licenciados, mas não existia ainda nenhum destinado a este grupo de pessoas com mais de quarenta anos, Jorge Líbano Monteiro adiantou, em declarações à imprensa, que a SBC está à procura de projectos com montantes acima dos cem mil euros, “que potenciem o desenvolvimento de empresas e que sejam elas próprias capazes de criar emprego para apoiar outras pessoas nesta fase dramática em que alguns profissionais “com percursos de excelência e de competência” se vêem de repente: “caem sem razão aparente ou culpa própria numa situação de desemprego de longa duração. Constatando esta realidade e o impacto que tem nas próprias famílias (porque com quarenta anos normalmente têm-se filhos ou pessoas a cargo), achámos que era importante desenvolver um projecto que desse um ânimo para regressar ao mercado de trabalho”, concluiu.

"Todos precisamos de todos"
Todas as informações relativas ao Fundo Bem Comum, quanto à missão e valores do projecto, órgãos sociais, parcerias e investidores, bem como quanto aos requisitos necessários para candidaturas devem ser consultados no site oficial do projecto, em www.bemcomum.pt. A página recebe processos de candidatura e permite o acompanhamento dos processos, para além constituir uma plataforma de apoio a ideias de negócio inovadoras desenvolvidas por quadros com know-how e talento.

Os nossos Parceiros
Parceiros